Maconha não tem propriedades medicinais, isso é desculpa para legalizar uma droga recreativa – MITO ou FATO?

MITO – Esse é um mito relativamente recente na história humana, já que a maconha foi proibida a menos de 100 anos e antes desse período nenhum dos seus usos havia sido criminalizado. É um mito baseado no total desconhecimento a respeito da história da humanidade e de como a maconha foi uma importante matéria-prima em diferentes períodos e também ignorância a respeito do conhecimento científico sobre os usos medicinais dos seus princípios ativos.

A maconha foi uma das primeiras plantas descobertas como útil e domesticada pelos seres humanos, há mais de 12 mil anos. Sempre fizemos dela diferentes usos, nas mais variadas civilizações e sociedades e a maior parte dos usos da planta sempre foram das partes não-psicoativas (fibras e sementes), ainda que sempre tenha havido uma ampla utilização das suas propriedades medicinais. O registro escrito mais antigo do uso medicinal da maconha tem cerca de 5000 anos e trata-se da primeira farmacopeia conhecida, escrita na China. Quando ela foi proibida no Brasil em 1932, médicos e farmacêuticos fizeram reclamações a respeito de como a medida iria prejudicar o acesso a uma ampla variedade de medicamentos. Nos EUA ocorreu o mesmo quando ela foi proibida em 1937. Podemos dizer, portanto, que a luta pela legalização do uso medicinal surgiu junto com a sua proibição, muito antes dos movimentos pela regulamentação dos usos recreativos, surgidos na década de 1960.

Logo após a maconha ser proibida em todo mundo pelo Tratado Internacional de 1961, diversos grupos sociais começaram também a se movimentar e aderir à luta para legalizar os usos medicinais da cannabis. Em 1975 a Suprema Corte dos EUA autorizou um paciente a utilizar cannabis em seu tratamento de glaucoma, pela primeira vez após a proibição uma pessoa passou a receber do Estado erva para fins terapêuticos. Atualmente mais de 20 Estados têm leis específicas regulamentando o tema e os EUA são um dos países onde a indústria da maconha medicinal está mais avançada atualmente. Em todo mundo, desde a década de 1970, diferentes países têm regulamentando os usos medicinais da cannabis, mesmo em lugares onde o uso recreativo continua sendo criminalizado. Isso tudo deixa claro que a discussão sobre esse tema vai muito além somente dos usos recreativos da erva, ainda que muitos ativistas pró-legalização atuem discutindo todos os temas de maneira conjunta, sem fazer as devidas separações. O mais correto séria discutir a cannabis da maneira como ela é de fato, uma planta medicinal que tem diversos efeitos que podem ser utilizados por suas propriedades terapêuticas, e uma dessas suas muitas substâncias tem também o efeito de provocar sensação de bem-estar e prazer e algumas pessoas usam esse efeito de maneira lúdica/recreativa. Ou seja, a maconha é antes de tudo uma planta medicinal!

Usar maconha pode causar esquizofrenia – MITO ou FATO?

MITO – Esse é um tema alvo de bastante polêmicas e controvérsias científicas, que somente nos últimos anos conseguiram ser melhor esclarecidas após estudos que acompanharam a vida de alguns usuários por muitos anos. Diferentes estudos, utilizando variadas metodologias, têm procurado se debruçar sobre a temática e avaliar os reais riscos que a cannabis pode oferecer em termos de causar esquizofrenia, psicose ou outros transtornos à psique. Com o conjunto de informações e conhecimento recolhido por esses estudos é possível concluir que não existem dados que confirmem a relação entre o uso de maconha e o desenvolvimento de transtornos na psique. O que os estudos sugerem é que a cannabis provoca predominantemente sintomas psicóticos somente em pessoas que já têm predisposição para desenvolver a psicose ou a apresentar sintomas psicóticos mesmo na ausência do uso de cannabis. Os cientistas concluíram, portanto, que a exposição a cannabis só pode ser considerada um fator que “causa” esses transtornos quando ela está em interação com outros fatores e seu uso é feito por pessoas que têm predisposição a esquizofrenia ou transtorno psicótico, mas que ela sozinha não é suficiente para provocá-los. Isso significa que pessoas com histórico de problemas psíquicos devem evitar o consumo de maconha sob risco desenvolverem problemas.

A fumaça da maconha faz mal à saúde – MITO ou FATO?

FATO – Toda e qualquer fumaça quando inalada pode fazer mal à saúde humana. Seja ela inalada de um cigarro de tabaco ou de maconha, ou vindo de uma fogueira ou fogão a lenha, ou aquela produzida pelos carros, ônibus, fábricas etc, com as quais temos que conviver diariamente nos centros urbanos. Existem duas principais maneiras que o hábito de inalar algum tipo de fumaça pode prejudicar a saúde: 1) o contato da fumaça quente a altas temperaturas com os tecidos celulares do sistema respiratório podem causar feridas e, com o tempo, provocar câncer ou outras doenças, mesmo que a fumaça seja isenta de produtos tóxicos; 2) Os produtos tóxicos produzidos pelo processo de carbonização podem causar diferentes doenças às diferentes partes do sistema respiratório, variando de acordo com cada produto queimado, pois cada um produz quantidades e tipos específicos de tóxicos e, mesmo a cannabis que é uma planta medicinal, quando queimada, produz alguns compostos que fazem mal a saúde, como o monóxido de carbono por exemplo.

Felizmente inalar fumaça de cannabis é apenas uma entre as inúmeras maneiras de consumir os princípios ativos da planta e mesmo usuários recreativos hoje em dia têm muitas opções para reduzir os danos do consumo evitando a inalação de fumaça. Mesmo as pessoas que consomem maconha através da inalação de fumaça podem reduzir os danos resfriando a fumaça antes da inalação. Alguns artefatos podem ser usados para isso pois foram desenvolvidos para produzir fumaça sem uso de papel, muitos deles também resfriando-a antes do consumo. Alguns aparelhos, chamados vaporizadores, também aquecem a erva ou resina a uma temperatura muito específica, entre 150 e 250 graus, o necessário apenas para que os princípios ativos se volatizem em vapor, em vez de queimarem em fumaça. Quando vaporizada a cannabis não produz produtos tóxicos como na queima, liberando apenas os princípios ativos da resina.

Em países legalizados as pessoas usam mais maconha – MITO ou FATO?

MITO – Esse é mais um mito criado pelo paradigma do determinismo farmacológico, que dita que todos os comportamentos relacionados com uma determinada droga são influenciados por fatores como efeitos químicos, doses e quantidades disponíveis para uso, dentre outros. Nessa lógica, quanto mais maconha e princípios ativos disponíveis, mais as pessoas se encorajariam para consumir. No entanto, o uso de maconha como diferentes outros comportamentos humanos está conectado muito mais com o contexto sócio-cultural no qual ele é realizado do que com a substância em si e a prática tem mostrado que a reação das pessoas à legalização é bastante variada. Na Holanda, por exemplo, nos primeiros anos ocorreu um aumento no número de pessoas que afirmavam nas pesquisas que consumiam maconha. Após alguns anos esse número se estabilizou e não foi registrado um aumento no percentual de pessoas que fumam maconha no país. Em outros locais, como alguns estados nos EUA, por exemplo, não foi registrado o aumento significativo no número de usuários por conta da legalização dos usos medicinais ou recreativos. Na Holanda as taxas de uso se mantém estáveis a anos e se mantém abaixo da maior parte dos países na Europa.

Os especialistas afirmam que é natural que num primeiro momento as pesquisas revelem o aumento do número de consumidores em todos os locais, tanto porque talvez as pessoas se coloquem mais a disposição para experimentar, como porque se sentem mais à vontade para revelar que são usuárias numa pesquisa feita em contexto não-criminalizado. Seja como for, na maioria dos locais onde houve mudanças nas leis a tendência é a estabilização no consumo e, mesmo quando há essa elevação inicial não costuma ser muito grande. Além disso, quer seja maconha, álcool, tabaco ou outras mais perigosas, as melhores estratégias para controlar as taxas de consumo nunca envolver políticas criminalizantes ou totalmente proibitivas. O que temos visto ao longo da experiências dos diferentes países com relação a política de droga é que, de fato são 3 os principais fatores que mantém as taxas de uso sob controle: 1) política constante de produção e difusão de informações e educação especializada direcionada a respeito do tema; 2) regulamentação do mercado com controle e fiscalização rigorosa da produção e distribuição, com taxação específica voltada para o cuidado dos usuários; 3) restrição à propaganda e publicidade.

O maior exemplo da eficácia desse tipo de política educativa, não-proibitiva foi a regulamentação do tabaco e a política para diminuição da população tabagista adotada nos últimos anos pelo governo brasileiro. Após 25 anos de implantação de diferentes leis federais, estaduais e municipais que criaram diferentes regulamentações e restringindo especialmente a propaganda de tabaco o consumo em locais fechados, focando também em diferentes estratégias educativas, conseguimos diminuir o consumo de tabaco em quase metade, sem precisar criminalizar os consumidores ou o mercado.

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