Dentre as infinitas práticas que devem ser regulamentadas quando a maconha for legalizada no Brasil, a questão do consumo e direção é uma das que mais despertam curiosidade. Nas considerações finais do Projeto de Lei 7270/2014, que regula a produção, a industrialização e a comercialização da planta no País, o deputado federal Jean Wyllys cita a questão quando afirma que “…só existe ‘lei seca’ para o trânsito e políticas para conter os danos do uso do álcool porque o álcool é regulamentado”.

Mas, afinal, como deve ser pensada a lei de trânsito para quem usa cannabis?

Para começar a entender essa questão (que, assim como tudo que envolve essa planta, é mais complexa do que se imagina), vale a pena olhar para países que passam por esse processo e, claro, estão muito avançados em pesquisas na área, para se ter uma referência de como agir (ou não) por aqui.

O fato é que ainda não há consenso sobre os limites que impedem o consumidor de cannabis de dirigir. De acordo com uma matéria da Herb que destrincha o assunto, o Instituto Nacional de Abuso de Drogas nos Estados Unidos tem estudado essa questão há muitos anos e não conseguiu estabelecer um nível recomendado de condução. Embora alguns estados estabeleçam limites quanto à quantidade de THC no sangue do motorista, o Departamento de Transportes do Colorado, por exemplo, afirma que agentes da lei se baseiam na deficiência observada pelo consumidor – ou seja, nas mesmas técnicas usadas para estabelecer se alguém está embriagado. Mas, como quem fuma maconha não costuma tropeçar nos próprios pés, esse tipo de fiscalização se torna ineficiente.

Um estudo recente da Liberty Mutual Insurance em parceria com a SADD (“Students Against Destructive Decisions”), afirma que um terço dos adolescentes americanos pensa que dirigir sob os efeitos da maconha não é ilegal. Cerca de 20% afirma que a prática é comum entre seus conhecidos. Seus pais não são diferentes: 27% concordam que dirigir chapado é legal, enquanto 14% disseram que seus amigos o fazem normalmente.

Embora levantamentos mostrem que o consumo de cannabis não afeta a incidência de acidentes fatais (em alguns estados americanos, o número de pessoas mortas em acidentes de trânsito caiu após a legalização da maconha medicinal, de acordo com a agência de notícias Reuters), a questão continua controversa.

As pesquisas que tentaram determinar em que grau o consumo de cannabis prejudica a habilidade de direção indicam que a maconha afeta a competência ao volante, a habilidade motora e a visão periférica. Surpreendentemente, um deles, realizado na Austrália, constatou que o consumo de maconha pode levar condutores a exceder na cautela atrás do volante. Entre tantas vozes destoantes, o que se pode analisar é que os riscos de acidentes relacionados à cannabis são relativamente baixos – certamente, menores do que os relacionados ao álcool.

Em meio a essa discussão ainda sendo construída, e prestes a legalizar a cannabis (em 1º de julho de 2018), o Canadá se prepara também para a política de redução de danos que colocará em prática – entre elas, a relação entre maconha e direção.

Em uma campanha mais controversa que a própria cannabis, a Beleave, empresa de biotecnologia licenciada em maconha medicinal, em parceria com o R.I.D.E. Checks (Reduce Impaired Driving Everywhere), programa da polícia em Ontário, lançou o projeto Consequence Strains, que inclui peças fotográficas (exemplo acima) que relacionam strains a arrependimento e miséria, e vídeos em que o consumo de cannabis está diretamente relacionado às tragédias no trânsito. “É maravilhoso ver grandes iniciativas de comunicação, educação pública e prevenção, como a campanha Don’t Drive High, que estão empenhadas em proteger os canadenses, reduzindo os riscos associados à cannabis e à condução”, declara Roger Ferreira, CEO da Beleave, em comunicado oficial.

Enquanto artigos como o da Vice USA questionam o tom e a veracidade do que prega essa campanha, defendendo a ineficiência de abordagens como essa e a falta de comprovações sobre a relação entre o uso de cannabis e os danos que ele pode causar, fica plantada a semente da discussão, para ser cultivada por aqui também, sobre como abordar questões tão importantes – e ainda não totalmente desvendadas – sobre a maconha.

Imagens: HighTimes, Consequence Strains.

Saiba mais em:

https://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/maconha-na-direcao-pesquisas-sugerem-que-risco-de-acidentes-baixo-11641657

https://herb.co/2016/04/08/new-medical-marijuana-state-asks-how-much-marijuana-is-really-ok-while-driving/

https://herb.co/2017/10/21/driving-high-not-bad-idea/

https://www.reuters.com/article/us-health-marijuana-traffic-death/after-states-legalized-medical-marijuana-traffic-deaths-fell-idUSKBN14H1LQ

https://herb.co/2017/02/19/differences-driving-drunk-stoned/

https://www.washingtonpost.com/news/wonk/wp/2015/02/09/stoned-drivers-are-a-lot-safer-than-drunk-ones-new-federal-data-show/?tid=a_inl&utm_term=.c29a946a5ea9

https://g1.globo.com/mundo/noticia/canada-se-prepara-para-legalizar-uso-recreativo-da-maconha-em-2018.ghtml

https://www.vice.com/en_ca/article/43nkzd/a-legal-weed-company-just-launched-this-dramatic-anti-stoned-driving-campaign

https://news.lift.co/federal-government-launches-dont-drive-high-campaign/

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