Literatura, ilustração, edição, humor, sardola, etc. São várias qualificações que caracterizam a MolusComix, editora voltada ao estilo de vida canábico e à contracultura. 

À frente da editora está o Molusco, do canal Mundo Molusco (YouTube), junto de Leandro Assis, ilustrador e roteirista, além de um dos responsáveis pelas séries em quadrinhos de grande sucesso no Instagram Confinada e Os Santos, ao lado de Triscila Oliveira. Junto desse time está também o experiente editor e roteirista Lobo, que esteve à frente das editoras Desiderata e Barba Negra. Lobo trocou uma ideia com a gente sobre a MolusComix, a cannabis, o preconceito e o atual cenário literário brasileiro. 

Esse papo foi pretensiosamente planejado para ser absorvido com uma sardola. Por isso, se você curte fazer a cabeça, essa é hora. Prepara a sua e vem com a gente!  

Sobre a editora Moluscomix, como e quando surgiu?

É uma história de reencontros.

Na Desiderata, em 2008, eu editei o livro “O Cabeleira”, escrito por Leandro Assis e Hiroshi Maeda, e desenhado por Allan Alex. Por volta de 2012, a Barba Negra lançou um livro do Wilson Aquino, “O Verão da Lata” (que vai ser relançado pela MolusComix, se possível, neste ano ainda) e nos extras do livro, publicamos um conto do Molusco, o “Trailer 69”.

Acho que em 2018 vi os primeiros desenhos do Leandro pelo Instagram e fiquei impressionado, sabia que ele era um excelente roteirista, mas não sabia do seu talento pra desenho. Conversa vai, conversa vem, ele me disse que estava a fim de ilustrar os contos de um amigo que trabalhou com ele como roteirista na Conspiração, e que mantinha um canal no YouTube, “Mundo Molusco”. São as voltas que o mundo dá.

Pirei com a ideia e, assim, começamos a trabalhar no livro imediatamente. Foram muitas conversas pra gente chegar no formato do Moluscontos, até achar o tom da adaptação dos roteiros para prosa, encontrar o estilo das ilustrações, que foram feitas simulando as imperfeições das impressões das revistas antigas com retículas grandes, pontos desencontrados… e muito desgaste. 

Quase dois anos de trabalho pra lançar no começo de 2020. Como o livro foi um sucesso de vendas, continuamos o papo e achamos que valia a pena estender a parceria do livro para uma editora. E cá estamos nós, lançando o nosso segundo livro, O Diário de uma Mãeconheira, da Maíra Castanheiro, que neste momento está sendo impresso na gráfica.

Qual era o objetivo da editora desde o início? O objetivo continuou o mesmo ao decorrer do tempo?

A editora não era um plano. 

A ideia era publicar o Moluscontos de forma independente, brincar de fazer um livro divertido com dois sujeitos extraordinários. Mas durante o processo de edição do livro, parecia que um segundo passo lógico seria aproveitar a boa aceitação do livro do Molusco e investir em uma editora de conteúdo canábico, literatura beat e contracultura. Assim, o Moluscontos já saiu da gráfica fazendo parte de uma editora.

Nosso segundo passo foi criar a assinatura de um gibi mensal, com o mesmo nome da editora, MolusComix, colorido, com 16 páginas. Infelizmente durou apenas 8 exemplares, pois o começo do projeto coincidiu com o início da pandemia, o que esculhambou os nossos planos, foi uma pena. Mas um dia a gente volta. Se tudo tivesse dado certo seria uma revista mix com aventuras do Molusco e histórias de outros personagens do Mundo Canábico como o Capitão Presença, por exemplo.

Voltamos, então, pro formato livro. Mas não somos uma editora tradicional, a gente também tá trabalhando outros produtos, como camisetas, pins, cartazes e adesivos dos personagens.

De onde surgiu o personagem Molusco? Em que momento foi notado o potencial, ou a necessidade, da criação de um personagem canábico?

Aqui vou responder pelo Molusco.

O personagem surgiu num dos piores momentos da vida dele, quando um cliente safado deu o golpe na agência em que ele era sócio e a casa caiu. Deprimido, ele achou uns textos que havia escrito na época da faculdade e conseguiu rir com a leitura. Com uma câmera na mão e muita sardola na cachola, ele começou a filmar os contos para o canal.

Foi assim que o Molusco, Dentola, Otávio e muitos outros amigos dele viraram personagens e ganharam o mundo, com o objetivo de nos fazer rir.

Mas, agora, com o aquecimento do mercado, os personagens que desenvolvem narrativas canábicas estão ganhando cada vez mais força e são um ponto de contato entre os consumidores e os produtores.

Que tipo de situações a MolusComix já passou por conta do preconceito relacionado à planta?

Quando eu tinha uns 16 anos fui parado pela polícia porque eu tinha cabelo comprido, segundo o policial, cabeludo era “viado”, marginal ou maconheiro. De lá pra cá, só coleciono preconceito. Eu venho de um mercado muito estigmatizado, o de histórias em quadrinhos, ou seja, só somei mais uma questão pra minha lista.

O Molusco é um personagem muito carismático, não tem quem não se identifique com as roubadas em que ele se mete. Ele não tem hater, e a MolusComix herdou isso dele. O único preconceito que a gente sofre no dia a dia é institucional, que o tema sofre nas redes sociais. Nossos anúncios são seguidamente reprovados pelo Google e Facebook, mas a gente tem criatividade e agilidade para driblar os gigantes engessados e sobreviver.

O Diário de uma Mãeconheira é a próxima novidade da editora. Rolou catarse, rolou acolhimento, e logo vai rolar o lançamento. Como acontece o apoio a escritores marginalizados pelo convencional?

Pois é, de certa forma, ser escritor já é ser marginalizado, ainda mais com os baixos índices de leitura no Brasil. A MolusComix é uma editora pequena, que trabalha muito próximo dos autores, e não tem como ser diferente.

Na vida adulta é difícil manter amizades. Trabalhar junto com os amigos, com pessoas que você ama ou admira é um jeito de manter contato mais próximo. Converso com a Maíra quase todos os dias e tomara que a gente faça muitos livros juntos pra não se afastar. Dividimos o trabalho e nossas vidas. A vida é curta demais pra você perder tempo com gente que só se interessa por dinheiro.

Quais os objetivos da editora, enquanto potencializadores da projeção canábica no Brasil?

Vejo do modo contrário, nós só estamos aqui porque o mercado canábico está potencializado, crescendo, se estabelecendo e possibilitando a nossa existência. Fazemos a nossa pequena parte para o mundo usando os quadrinhos e a literatura para quebrar o tabu em relação à proibição das drogas, discutindo de forma honesta e bem humorada.

Curtiu? Acesse o site da MoluscoMix e conheça seus títulos. Os Moluscontos também estão disponíveis na Ganja Talks Store.

Vem com a gente desbravar o universo canábico, manéglégléglé!

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui


Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.