O uso cultural e ritualístico de substâncias psicoativas naturais, com propriedades alucionógenas, sempre esteve presente na história da humanidade.

DMT, ibogaína, mescalina e psilocibina têm seus usos relatados pelas culturas indígenas sul e norte-americanas. Os usos registrados dessas substâncias por tais culturas datam de, pelo menos, 6.000 anos atrás. Registros históricos apontam que o uso dessas substâncias era de aplicação social, ou seja, era feito em grupos, de maneira ritualística, para buscar curas. 

Nesses usos ritualísticos, sempre se defendeu que as substâncias psicoativas naturais ajudam a curar doenças e também melhorar a liberação de substâncias químicas que causam boas sensações ao corpo e à mente. 

No hinduísmo, por exemplo, tais substâncias sempre foram usadas, a exemplo da cannabis, em rituais sagrados. Alguns textos sânscritos, inclusive, contam com menções ao cogumelo Amanita Muscaria, que contém psilocibina. No Oriente Médio, o uso de ópio também era amplamente aceito e data de 3.000 atrás, sobretudo para aliviar a dor e usado em rituais. 

Alguns usos primordiais da própria cannabis estavam atrelados à medicina e também a rituais de purificação e cura. 

Claro que, com o passar do tempo, na sociedade moderna, novos usos foram se aplicando a essas substâncias. Apesar do contexto ter mudado, alguns motivos principais explicam a busca e integração de substâncias que causam alterações na mente, na história da humanidade, elucidando por que os seres humanos sempre fizeram uso de substâncias que causassem alteração no estado de consciência. 

E não se trata apenas de substâncias psicoativas, mas álcool e cafeína também figuram como elementos muito presentes socialmente na nossa cultura, que causam alterações na mente.

Consciência alterada

Michael Pollan, pesquisador e escritor norte-americano, explora esse tema em seu último livro ”This is Your Mind on Plants” (ainda sem versão em português, mas em tradução livre seria algo como ”Essa é sua mente com plantas”). 

Nessa publicação literária, Pollan busca explicar a obsessão humana por plantas psicoativas – não apenas alucinógenos, mas também cafeína e ópio – e por que nossa cultura tem uma relação tão forte com elas.

Em entrevista para a Vox, sobre seu livro, ao ser perguntado sobre por que sempre buscamos estados alterados de consciência e o que há no estados comuns de consciência que nos assusta e nos limita, Pollan responde que esse é um desejo universal da nossa espécie. 

Segundo seus estudos, alterar a consciência é quase uma necessidade humana porque nós não nos satisfazemos com a ”consciência normal, rotineira”. Faz parte da nossa natureza buscar novidades, tanto novos lugares e atividades, quanto novos estados mentais. 

Ao usar uma substância psicoativa, é possível mudar os padrões de pensamento, de sensações, e Pollan interpreta isso como uma necessidade humana para ”escapar” da rotina, do tédio, dos estados mentais rotineiros, os quais estamos acostumados. 

Outro motivo apontado pelo autor, pela busca de estados alterados de consciência, é o alívio da dor. Esse motivo é um dos que melhor explica os usos culturais e ritualísticos de substâncias psicoativas ao longo da história. 

O ópio é um exemplo óbvio de substância que alivia a dor, mas as outras drogas têm o importante papel de nos distrair da dor. Ou seja, mesmo não agindo diretamente, de maneira terapêutica, sobre a dor, as drogas conseguem tirar o foco da dor e fazer com que sua mente desligue dessa sensação e traga sensações melhores.

Isso explica, em parte, porque os usos ritualísticos e culturais das substâncias psicoativas estavam associados à cura e sensações de bem-estar, nas civilizações e culturas antigas.

Por fim, Pollan ainda afirma que as drogas contribuem para nossa evolução como espécie, no sentido cultural. O autor especula que tais substâncias dão ideias às pessoas, dão origem a metáforas e imagens, e tudo isso alimenta a evolução cultural de maneira semelhante à forma como a mutação e a variação alimentam a evolução biológica

Nesse sentido, outro aspecto importante das substâncias que causam estados alterados é que elas aumentam a sociabilidade. ”Drogas como o álcool tornam as pessoas mais fluidas socialmente, mais interessadas nas outras pessoas. O MDMA também faz isso. Atividades que nos tornam criaturas mais sociáveis ​​são muito importantes para nosso sucesso como espécie.”, afirma Pollan. 

Ou seja, no fim das contas, as substâncias psicoativas naturais, quando usadas de maneira contextualizada, além de nos ajudarem a sobreviver à rotina, também nos ajudam a evoluir!

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