A legalização da cannabis já mostrou ser muito mais efetiva do que o proibicionismo em termos de saúde pública, segurança pública, bem como em termos socioeconômicos e culturais. 

Mas uma questão problemática que se apresenta com a legalização (sobretudo para uso adulto) é tirar esse mercado do principal fornecedor da planta ilegal: o tráfico. 

Levando em consideração que a maconha é a substância ilícita mais consumida do mundo, também é a mercadoria que rende a maior parcela de lucro do tráfico. Não podemos esperar que o narcotráfico desapareça com a liberação da cannabis.

Com a legalização, o ideal era que o mercado negro pudesse começar a vender maconha legalmente, mas não é bem assim. Para entrar no mercado legal da cannabis muitas taxas, impostos e burocracia estão envolvidas. 

(Imagem: reprodução NPR)

Assim, em muitos países que legalizaram a cannabis, o tráfico continuou sendo o maior fornecedor de maconha, por conseguir manter os preços baixos em relação ao mercado da maconha legal. Em outros, a violência aumentou, como no Uruguai, onde as facções criminosas começaram a disputar pelo mercado que restou. 

É nesse contexto que estados norte-americanos resolveram adotar programas de Empoderamento Econômico para tornar o mercado legal da cannabis mais acessível. Oferecendo apoio financeiro e social, o governo busca incentivar que mais pessoas entrem no mercado legalizado. Mas nem sempre acontece dessa forma. 

Equilíbrio entre mercado legal e ilegal

Em entrevista para Vox, um traficante de maconha de Nova York relata como a legalização da cannabis para uso adulto no estado afeta seus negócios. 

Jeff, pseudônimo utilizado para preservar a privacidade do traficante, afirma que a cannabis é uma indústria de pessoas e conexões. Esse sistema pode ser ameaçado pelo capital privado, mas o mercado ilegal também não é o melhor exemplo de funcionalidade para o comércio de maconha. O equilíbrio entre quem já participa desse comércio e o capital de grandes indústrias têm a difícil tarefa de se manter na indústria da cannabis. 

Na entrevista, Jeff comenta que a maior preocupação de quem está do lado ilegal do negócio são os lucros. Apesar do tráfico manter o preço baixo, tentando ser uma opção mais atrativa aos consumidores, as pessoas querem ir aos dispensários e ter opções. Poder comprar algo que foi tabu por tanto tempo em uma loja é uma novidade bastante atrativa.

(Imagem: reprodução Los Angeles Times)

Porém, como o mercado canábico acaba sendo dominado por grandes indústrias, é difícil que o mercado negro se transforme em uma loja física. 

Jeff acredita que a relação que ele desenvolveu com sua clientela vai conseguir mantê-lo no negócio. E a maior dificuldade em competir com os estabelecimentos legais, ou melhor, dispensários, é que existe muito dinheiro por trás financiando grandes empreendimentos. 

Ele vê que a legalização em NY vai ser ótima para o turismo, em termos de adquirir cannabis legal para uso adulto, mas para quem já compra há bastante tempo no mercado ilegal, ele acredita que a tendência é que continue esse relacionamento com o fornecedor. 

Jeff afirma que existe um lado muito tóxico nessas grandes indústrias que querem dominar o mercado canábico. Para ele, manter o relacionamento com sua clientela e sua conexão com cultivadores que ele conhece há anos, é melhor do que se envolver em um mercado legalizado dominado por grandes indústrias e investidores. 

Boa parte de seus clientes, inclusive, compra cannabis para fins medicinais. Ele vê que mesmo no mercado ilegal da maconha, é possível ajudar bastante gente. Jeff aponta que o acesso à maconha medicinal ainda não é tão amplo, então ele acredita que seu negócio ajuda muitas pessoas também. 

(Imagem: reprodução Chicago Business)

É claro que não podemos negar que existe toda a violência envolvida no tráfico, boa parte advinda do sistema proibicionista vigente, e que em países como o Brasil, a cannabis do mercado negro, com valor acessível, é completamente sem procedência.

De qualquer forma, a questão que se coloca é: com a legalização, o mercado ilegal vai continuar existindo. Ainda existe comércio ilegal de bebida, cigarros e medicamentos, por exemplo. 

As ações do governo que visam redirecionar o comércio da maconha do tráfico para o mercado legal precisa ser pensado da maneira mais adequada para realidade de cada sociedade.

E o Brasil?

Fica a dúvida como se daria a transição do mercado ilegal da cannabis para uso adulto para o mercado legalizado. 

Sabemos de todos os benefícios que a legalização traria, mas pode ser que grandes indústrias e capital estrangeiro dominem o mercado canábico brasileiro. 

Tendo em vista o exemplo de outros países, muito provavelmente o mercado ilegal se manterá. Mas quais serão os desdobramentos desse cenário no país?

Só esperando uma nova política de drogas para saber. O que temos certeza é que a Guerra às Drogas e o proibicionismo já se provaram ser abordagens ineficientes para lidar com o narcotráfico. A legalização se mostra como a melhor alternativa, caberá ao governo regulamentar o mercado de uma maneira efetiva.

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