Muito se tem ouvido falar sobre ”cannabis medicinal” para cá, ”cannabis recreativa” para lá. Ao mesmo tempo ”maconha”, ”ganja”, ”erva” acabam sendo vistos como termos pejorativos, como se a terminologia utilizada determinasse coisas separadas, quando, na verdade, todos os termos se referem à mesma planta: Cannabis Sativa L.

(Imagem: Unsplash)

O favoritismo pela palavra ”cannabis” ao invés de ”maconha”, por exemplo, surgiu como um meio de aumentar a aceitação da planta. 

Isso porque o termo ”maconha”, bem como a denominação ”marijuana”, em inglês, têm uma história ligada ao racismo. 

Origem das palavras

Fontes históricas apontam que a palavra maconha foi trazida pelos africanos ao Brasil.

A palavra ‘ma’kaña’, que significa erva santa na língua Quimbundo (uma das línguas faladas em Angola), foi adaptada para ‘maconha’ no Brasil. Relatos apontam que os escravos utilizavam essa palavra como um ”código” ao se referirem à planta. Pelo fato do uso da erva passar a ser repreendido, eles acabaram usando esse termo para não associarem ao uso da maconha, que aqui era conhecida apenas como cânhamo. 

Curiosamente, maconha é um anagrama da palavra cânhamo. Portanto, há quem diga que ao adaptar ”ma’kaña’’ para o português, os afrodescendentes fizeram um jogo de palavras inteligente, tendo aproveitado a sonoridade similar e as letras do conhecido ”cânhamo’’, e traduzindo ma’kaña para ”maconha’’.

(Imagem: extraída do artigo ‘‘A história da maconha no Brasil” do Dr. Elisaldo Araújo Carlini)

Portanto, a palavra maconha acabou sendo associada aos africanos por muito tempo. 

Com o desenrolar da Guerra às Drogas e do proibicionismo, a maconha ficou vista de forma depreciativa, sendo associada ao ato de ficar chapado, visto com maus olhos pela sociedade conservadora, que ainda impera no país. 

Inclusive, o estereótipo do maconheiro ainda domina a percepção sobre o consumo da maconha no Brasil. Ou seja, aos olhos do conservadorismo quem consome maconha é preguiçoso, vagabundo, deliquente. 

Agora, se você diz que faz uso de cannabis, a percepção muda. Essa ”purificação” do termo buscou desvincular a ”maconha” (vista com maus olhos) da ”cannabis” (associada aos usos científicos e medicinais da planta), sendo que tudo se refere à mesma planta Cannabis Sativa L. 

Nos Estados Unidos, o termo ”marijuana” era usado pelos mexicanos e foi amplamente disseminado de forma pejorativa pelos cunhadores do proibicionismo no país. 

Harry Anslinger, responsável por levar à cabo a proibição da maconha nos EUA, investiu em fortes propagandas dizendo que a marijuana era uma ”erva demoníaca”, utilizada por mexicanos e negros, e responsável pela depravação social. 

Mais uma vez o estereótipo negativo do maconheiro surge dessa associação. A intenção era fixar no inconsciente popular que a marijuana estava diretamente ligada aos mexicanos e negros, sobretudo os músicos de jazz, os quais foram associados à vagabundagem, deliquencia e promiscuidade pelo conservadorismo norte-americano. Logo, criou-se a imagem de que aqueles que consomem marijuana assumem automaticamente essas características.

Cannabis medicinal x cannabis recreativa

Com o início da legalização da maconha para uso medicinal na Califórnia, a comunidade científica e médica buscou usar um novo termo que fizesse com que as pessoas aceitassem a planta. Com isso, o termo ”cannabis” passou a ser amplamente utilizado pela indústria e medicina, a fim de desvencilhar a concepção pejorativa da marijuana, cuja tradução direta para o português é ”maconha”, claro. 

Um dos primeiros dispensários da Califórnia afirma ”a marijuana passou a ser associada à ideia de que a cannabis é um tóxico perigoso e viciante, não um remédio fitoterápico holístico… Esse estigma desempenhou um papel opressor sobre os esforços de legalização da cannabis em todos os Estados Unidos.”

Dessa forma, para aumentar a aceitação, o termo ”cannabis” passou a ser usado na busca de tentar legitimar os usos aceitos da planta (medicinais, industriais e científicos). 

(Imagem: reprodução Business Insider)

Nesse processo, também começou a ser feita a diferenciação entre ”cannabis medicinal” e ”cannabis recreativa”, dando a ideia de que existem dois tipos distintos de cannabis. Com isso, a cannabis medicinal, quase que exclusivamente associada ao CBD, passou a ser vista com bons olhos, e a cannabis recreativa, associada ao THC, ainda é percebida com preconceito e resistência.

Mais uma vez: trata-se da mesma planta. A separação que tentaram criar apenas reforça o estigma, além de tentar resumir a planta apenas em CBD e THC, sendo que essa espécie botânica contém mais de 400 compostos.

Essa tendência de separação entre ”medicinal/CBD: bom” versus ”recreativo/THC: mau” é, inclusive, ampliada na trajetória de legalização da planta: na maioria dos países e estados norte-americanos que legalizaram a maconha, primeiro aconteceu a legalização da planta para fins medicinais e, em um segundo momento, a legalização da cannabis para fins recreativos ou uso adulto (como se convenciona chamar agora).

No Brasil essa separação também está presente: o PL 399/15 visa regulamentar a planta apenas para fins medicinais, industriais e científicos.

A indústria, legisladores e a comunidade médica reforçam a dicotomia ao afirmar constantemente: ”produto medicinal, sem THC”, ”cannabis medicinal sem efeitos psicoativos”, ”cannabis medicinal com efeitos terapêuticos”… 

(Imagem: no produto, o destaque é para ”THC free”, livre de THC, em português | reprodução Lovewell Farms)

Essa separação, primeiro entre maconha e cannabis, e agora entre cannabis medicinal e cannabis recreativa, pouco ajuda em relação ao estigma, e em relação à disseminação de conhecimentos sobre a planta. 

Quando vemos manchetes da mídia tradicional, constantemente o termo ”maconha” vem associado a notícias sobre buscas, apreensões, tráfico. Quando o termo ”cannabis” aparece, geralmente está ligado a matérias sobre a área da saúde, negócios, ciência. 

A educadora Luna Vargas cunhou o termo ”CannabisWashing” para denominar essa higienização, por assim dizer, dos termos relacionados à planta Cannabis Sativa L. 

O advogado e ativista Erik Torquato afirma em suas redes ”não podemos aceitar que cannabis seja sinônimo de vida e esperança enquanto maconha sinônimo de morte e marginalização. A armadilha imposta pelo sistema, também representada por este antagonismo linguístico, é algo a ser pensado. Palavras ditas moldam ideias. Diferenciar cannabis e maconha é racismo, elitismo e hipocrisia”.

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