Os principais produtores de haxixe do mundo compartilham algumas características em comum: são majoritariamente islâmicos, foram os primeiros produtores de haxixe da história, mas a produção do concentrado é ilegal.

Essas características contraditórias são fruto de uma mistura entre cultura milenar, religião fundamentalista e economia enfraquecida.

(Imagem: reprodução Hypeness)

Países islâmicos e cultivo de cannabis

De maneira simples, o islamismo é uma religião, que acredita no deus Allá e segue os preceitos do Alcorão. Porém, o islamismo foi ganhando novas nuances ao longo do tempo, e foram surgindo diferentes vertentes dentro do movimento. 

Apesar dos muçulmanos (seguidores da religião islâmica) estarem presentes em praticamente todos os países do mundo, a maior concentração dessa população está no norte e centro da África, Oriente Médio e Sul da Ásia. A maioria dos países dessas regiões possuem uma população de 90% de muçulmanos. 

Mas qualquer país que tenha 50% da população que siga as bases do islamismo, é considerado um país de maioria islâmica. 

Alguns desses países têm a maconha bastante presente na cultura e economia, ainda que os usos sejam considerados ilegais pela lei, e proibidos pela tradição mais fundamentalista do islamismo, como é o caso dos quatro maiores produtores do concentrado da maconha (haxixe).

(Imagem: reprodução The Daily Beast)

Maconha na religião islâmica

Esse é um tópico complicado e controverso entre os seguidores do islamismo, principalmente porque nem seu livro sagrado, o Alcorão, nem o Profeta Muhammad (o mensageiro escolhido do deus Alá) abordam diretamente se o uso da erva é adequado ou não. 

Alguns muçulmanos consideram a maconha “ḥalāl” (que significa “permissível”) e aceitável, dependendo da finalidade do consumo. Outros vêem a cannabis como um narcótico, podendo ser utilizada apenas para finalidade medicinal. 

As diferentes tradições dentro do mundo islâmico faz com que os usos e aceitação da maconha varie dentro do islamismo.

E, apesar de algumas ”linhas” proibirem a maconha, diversas culturas antigas da África, Oriente Médio e Ásia carregam a tradição de consumo da maconha, antes da presença da religião. 

Portanto, apesar dos preceitos fundamentalistas do islamismo, a prática de consumir maconha para finalidades distintas é arraigada em algumas culturas. 

(Imagem: reprodução Scroll.in)

Economia do haxixe

O fato é que a maconha desempenha um papel importante na economia e cultura de alguns países muçulmanos. Principalmente pelo fato do cultivo e comércio da erva – bem como do haxixe – ser uma tradição milenar que acompanha a cultura de nações, hoje, muçulmanas. 

Apesar desse panorama, a Guerra às Drogas impôs o proibicionismo da maconha em países onde o cultivo desempenhava um papel socioeconômico importante, como é o caso do Marrocos, Afeganistão, Líbano, Paquistão, os quatro principais produtores de haxixe do mundo, segundo relatório da ONU

Marrocos

O país do norte da África é quase em sua totalidade muçulmano

Apesar da religião por lá ser contra o consumo da erva, a população consome amplamente, e o Marrocos é o maior produtor de haxixe do mundo, estando em primeiro lugar em termos de exportação. 

As montanhas do país são tomadas por mais de 500 km quadrados de plantação de cannabis. 

Embora o cultivo para fins medicinais e industriais tenha sido legalizado este ano (2021), muitos agricultores ainda operam na ilegalidade e são alvos de frequentes ações policiais.

Esses agricultores que dependem do cultivo e produção do haxixe (exportado para toda Europa) ficam à mercê dos dos poderosos cartéis de tráfico internacional e são impactados pelas leis marroquinas.

A nova lei, teoricamente, permite que os agricultores cultivem e exportem. Porém, a maioria está respondendo a processo judicial da época em que as práticas eram ilegais. 

Segundo dados da BBC, mais de 40 mil fazendeiros estão sendo processados por seus atos de antes de a nova lei entrar em vigor.

Afeganistão

O Afeganistão é o segundo maior produtor e exportador de haxixe do mundo. 

Consumir e plantar maconha é algo que faz parte da cultura do Afeganistão, que deu origem a ”strains originárias” (landraces), como a Afghan Kush, e ao famoso haxixe afegão. 

Hoje em dia, a lei proíbe o cultivo e comércio da maconha e da resina

Recentemente, o grupo fundamentalista Talibã tomou o país e prometeu que a nação afegã seria livre de drogas. 

O que indica que a orientação muçulmana do grupo é contra o consumo da maconha. Ao mesmo tempo, o comércio de haxixe é uma das principais fontes de lucro do Talibã.

É importante destacar que agricultores do Afeganistão dependem da produção das substâncias ilícitas do país para sobreviver, como o haxixe e o ópio. 

Dessa forma, seria muito mais racional para a cultura e economia do país tornar o mercado da maconha regulamentado. 

Mas, agora, com o Talibã lucrando com o comércio ilegal e controlando os usos da população através do fundamentalismo islâmico, essa realidade parece estar mais distante do que nunca. 

Paquistão

O país vizinho ao Afeganistão é o terceiro maior produtor de haxixe ilegal do mundo, sendo, também, uma das principais fontes de lucro do Talibã. 

No Paquistão, o islamismo tende a ser mais conservador, proibindo estritamente o consumo de álcool, por exemplo. Ao mesmo tempo, a população é surpreendentemente aberta ao uso de haxixe

Isso pode ser explicado pela cultura de cultivar e fumar haxixe presente na região há séculos. A presença da maconha na cultura paquistanesa é anterior à chegada do Islã na região. 

Por ser um país que também tem sua economia dependente, majoritariamente, da agricultura, o cultivo da maconha é amplo. 

No Paquistão, o governo optou por legalizar a planta para fins medicinais e industriais. 

O governo acredita que a produção de cânhamo pode abrir novas oportunidades para os agricultores do país, em um momento de crise da indústria do algodão. 

A maconha cresce em abundância no Paquistão, é altamente resistente a condições climáticas adversas. Não há necessidade de agrotóxicos em sua produção, o que o torna ecologicamente correto e seguro. Também pode ser cultivado em poucas terras e requer menos água que o algodão. 

A ideia é que o país possa se beneficiar da nova lei, apesar do consumo e produção de haxixe permanecerem ilegais.

(Imagem: plantação de maconha no Paquistão, na fronteira com Afeganistão | reprodução The Washington Post)

Líbano

O Líbano tem sua população majoritariamente muçulmana.

Apesar da proibição do haxixe e da maconha para uso recreativo, o Líbano figura em quarto lugar como maior produtor do concentrado. 

No período da Guerra Civil do país (1975 a 1990), a nação libanesa era responsável por fornecer 80% do haxixe do mundo, uma das poucas fontes de lucro – ainda que ilegal – do país durante a longa guerra. 

Atualmente, o país está passando por uma forte crise econômica e instabilidade social e política.

A situação de colapso que vive o Líbano está afetando especialmente o setor agrícola e as condições de vida dos trabalhadores rurais, que afirmaram em reportagem do Público: “Vivemos sem nada. Não podemos comprar os materiais para plantar”.

Segundo o agricultor, o plantio da cannabis apresenta algumas vantagens frente a outros cultivos, não só econômicas, mas também ao nível da produção, uma vez que a cannabis não necessita da mesma quantidade de trabalho que os outros tipos de culturas. ”É uma planta forte e, além disso, depois de seis meses já dá para dar lucro”, afirmou. 

Cerca de 80% dos agricultores estão plantando maconha em alguma parte de suas terras. 

Os produtores de haxixe são os que mais lucram, mas os que mais correm riscos. 

Apesar do Líbano ter legalizado os fins medicinais da planta, ainda não existe uma regulamentação.  

De qualquer forma, a produção de haxixe é considerada crime. Mas a polícia faz vista grossa. 

O consumo, apesar de fazer parte da cultura libanesa, também é crime

“Se te pegam com dois gramas para consumir, te colocam na cadeia. É um absurdo. Não tem lei, nem tem nada”, afirma agricultor para o Público.

Ou seja, o cultivo da maconha acontece largamente – bem como a produção ilegal do concentrado – sendo uma das maiores fontes de renda de agricultores do país, mas as práticas não são legalizadas. 

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