Os psicodélicos possuem uma longa história com a humanidade.

Pesquisas mostram que eles podem aliviar diversas questões de saúde mental. Então podemos esperar que, em breve, todos seremos tratados com psilocibina, ayahuasca, MDMA e ketamina?

(Imagem: reprodução Psychedelic Spotlight)

As pesquisas com psicodélicos estão cada vez mais presentes na área psiquiátrica.

A terapia assistida com cogumelos mágicos e MDMA, por exemplo, tem sido promissora para ajudar no processamento de memórias traumáticas, provocando mudanças comportamentais, em vez de apenas enterrar e suprimir sintomas e traumas (como os medicamentos tradicionais costumam funcionar). 

Assim, os psicodélicos têm sido amplamente estudados para tratar distúrbios da saúde mental, como Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT), dependência química e depressão, por exemplo. 

Mais pesquisas

Por apresentar um grande potencial na área psiquiátrica, pela primeira vez desde o início da guerra às drogas, os Estados Unidos estão financiando pesquisas com psicodélicos. 

Mesmo 10 anos atrás, psilocibina, MDMA e ketamina eram um tabu em muitos campos acadêmicos. 

Mas, à medida que a lógica intelectual por trás da guerra às drogas se tornou cada vez mais insustentável, investimentos começaram a surgir para financiar pesquisas com psicodélicos na área da saúde. 

“Os psicodélicos são as ferramentas mais extraordinárias para estudar a mente e o cérebro”, diz David Luke, diretor co-fundador da conferência de consciência psicodélica, Breaking Convention, ao The Guardian. “É um tópico quente, com cerca de uma dúzia de centros de pesquisa dedicados em universidades de alto nível em todo o mundo”. 

(Imagem: reprodução ABC News)

O entusiasmo acadêmico e científico em torno dos psicodélicos tem aumentado em meio à falta de avanços na psiquiatria. 

“Não progrediu como um campo da medicina em relação a outros, por décadas, e muitos psiquiatras ficaram profundamente frustrados”, afirma Luke. 

Um número crescente de pesquisas relatou resultados incrivelmente promissores para pessoas com risco de problemas psicológicos. 

Um estudo publicado no The Journal of the American Medical Association (Jama) Psychiatry, em 2021, descobriu que uma alta dose de psilocibina reduz significativamente as síndromes depressivas e melhora a ansiedade por períodos prolongados. Isso parece ser devido à promoção de uma comunicação mais forte entre partes geralmente desconectadas do cérebro, gerando um estado mais elevado de consciência, pois as pessoas são menos restritas e mais capazes de processar emoções.

O fato de que uma droga administrada uma vez pode ter esse efeito por tanto tempo é uma descoberta sem precedentes”, disse o psiquiatra da Universidade de Nova York, Stephen Ross, sobre um estudo de 2016. “Nunca tivemos nada parecido no campo psiquiátrico.” 

Uma das principais vantagens debatidas dos psicodélicos sobre as drogas existentes é que eles trabalham de forma holística para tornar o cérebro mais maleável, liberando as pessoas de crenças e memórias antigas – abrindo-as cada vez mais para novos conceitos e estados de espírito. Assim, eles permitem que o cérebro se reinicie e se reprograme, em vez de simplesmente atenuar os sintomas e até mesmo causar sérios efeitos colaterais. 

Ou seja, tais substâncias agem na raiz do problema, criando novos padrões de pensamento no paciente. Os medicamentos tradicionais atuam apenas nos sintomas. 

Isso posiciona as terapias psicodélicas como revolucionárias para o tratamento de uma série de outras condições resistentes ao tratamento. 

Com isso, especialistas acreditam que os psicodélicos podem fazer pela psiquiatria o que o microscópio fez pela biologia. 

Por muitos anos, se defendeu que as substâncias psicodélicas e enteógenos não possuiam valor medicinal, o que manteve as pesquisas congeladas. 

Durante a contracultura, principalmente, surgiu a preocupação de que as drogas estimulariam as pessoas a se tornarem mais rebeldes. 

“Não é que os psicodélicos sejam perigosos, é que eles dão ideias perigosas”, diz Dennis McKenna, etnofarmacologista e autor. “Essa foi a razão básica pela qual houve uma reação tão exagerada e repressão, porque era um momento tão turbulento com a guerra do Vietnã.” Políticos, em vez de cientistas ou clínicos, estavam no comando por trás da supressão de pesquisas e do uso.

A medicina psicodélica tem o potencial de mudar completamente a abordagem da sociedade ao tratamento de saúde mental, e a pesquisa é o primeiro passo para realizar essa transformação. 

Mudança de paradigma 

Com mais pesquisas atestando os potenciais dessas subsâncias, governos têm começado a olhar de maneira diferente para os usos dos psicodélicos. 

Cerimônias com ayahuasca (cujo princípio ativo é o DMT) são mais aceitas em diversos países do mundo, por exemplo. Religiões que fazem cerimônias com a ayahuasca ganharam direito legal para usá-la com fins ritualísticos. 

O mesmo aconteceu com a Igreja Nativa Americana, que ganhou o direito de usar o cacto peiote contendo mescalina como um sacramento nos EUA – onde cresce naturalmente no deserto do sudoeste. 

Movimentos sociais como o ”Decriminalize Nature”, que argumenta que os humanos têm um direito inalienável de desenvolver sua própria relação com plantas naturais, persuadiu autoridades norte-americanas a descriminalizar todos os medicamentos naturais e vegetais. 

Em 2021, o Senado californiano aprovou um projeto de lei para legalizar a posse e o compartilhamento social de psicodélicos. O Oregon já votou para descriminalizar a posse de quantidades pessoais de todas as drogas, enquanto a terapia com psilocibina foi licenciada e o departamento de saúde do estado foi encarregado de licenciar produtores de cogumelos mágicos e treinar pessoas para administrá-los.

A tendência é que mais países regulamentem os usos – até então proibidos – dos psicodélicos, graças aos avanços das pesquisas na área.

(Imagem: reprodução Psychedelic Spotlight)

O interesse da indústria farmacêutica

A gigante indústria farmacêutica já está se aproveitando dos potenciais disruptivos dos psicodélicos, criando patentes, desenvolvendo medicamentos e visando grandes lucros. 

Especialistas apontam que é inevitável a intervenção de grandes indústrias nessa área, mais investimentos podem ser benéficos para novas soluções serem desenvolvidas, porém, deve-se ter em mente a importância da reciprocidade, da justiça social, da acessibilidade e da sacralidade dessas substâncias. 

As empresas devem apoiar a educação e a saúde nas comunidades indígenas, dado o lucro que as grandes farmacêuticas podem ter.

Ponto de atenção

Especialistas também têm preocupações sobre a maneira pela qual o tratamento com psilocibina e outros psicodélicos poderia ser administrado, bem como com o uso indiscriminado

“Este trabalho está enraizado não no tratamento médico, mas na prática sagrada de se conectar com tradições que são tanto de natureza indígena quanto espiritual na prática”, diz Françoise Bourzat, especialista em práticas tradicionais de aplicação dos psicodélicos. 

Além dessa preocupação, muitas dessas substâncias presentes na natureza (embora não os cogumelos mágicos, que são simples de cultivar e relativamente onipresentes) são recursos finitos e já enfrentam sérias pressões.

(Imagem: reprodução TVO)

O medo entre os defensores dos psicodélicos é que uma possível despriorização do aspecto humano do cuidado – seja por meio de ambientes estéreis ou por meio de prescrições onde os pacientes traçam seu desenvolvimento por meio de aplicativos sem contato humano – possa ser prejudicial aos benefícios do tratamento. “A abordagem medicalizada dominante que está surgindo está minimizando o valor do apoio humano. Esse trabalho deve ser feito dentro dos relacionamentos”, diz Bourzat.

Terence McKenna (etnobotânico, ativista, autor e defensor dos psicodélicos) concorda que o pior que poderia acontecer é a indústria farmacêutica ignorar a cultura e o contexto histórico do uso de psicodélicos. 

Ele acredita que todos devem ter acesso a eles, e não apenas em ambientes clínicos privados, como parece o caso da ketamina e MDMA. 

O ícone entre os psiconautas declara: “Quaisquer estruturas regulatórias futuras não devem estabelecer situações em que você precise estar doente para tomar um psicodélico legalmente”.

Fonte: The Guardian

*Imagem de capa por Psych Central

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