O sistema endocanabinóide (SEC), que se liga diretamente com os canabinóides da maconha, também interage com outras plantas.

(Imagem: reprodução Royal Queen Seeds)

O tetrahidrocanabinol (THC) abriu o caminho para a descoberta do sistema endocanabinóide, presente na maioria dos animais vertebrados.

Agora, graças a evolução das pesquisas sobre o SEC, a ciência moderna está investigando como outras plantas podem interagir com esse sistema.

Outras plantas e o SEC

O que se sabe é que existe uma classe emergente de produtos naturais que também interagem com o sistema endocanabinóide. Essas moléculas podem ser encontradas em toda a natureza, em:

Os constituintes desses produtos naturais podem interagir com o SEC de várias maneiras diferentes.

Essas moléculas têm propriedades semelhantes à cannabis e podem ser agrupadas em uma classe nova de moléculas conhecidas como canabimiméticas. Esse termo se traduz em “imitação de canabinóides” (móleculas que mimetizam a cannabis).

Moléculas canabimiméticas são moléculas de fontes diferentes da maconha que produzem seus efeitos através do sistema endocanabinóide.

Tecnicamente falando, esse termo pode ser aplicado tanto a produtos naturais, quanto a drogas sintéticas feitas por cientistas. Mas, aqui, vamos focar apenas em compostos canabimiméticos de ocorrência natural.

Como os canabimiméticos funcionam

Esses compostos atuam diretamente com os receptores do sistema endocanabinóide ou indiretamente, interagindo com enzimas importantes dentro do sistema.

Essas moléculas podem vir em formas e tamanhos variados. Algumas são quimicamente semelhantes aos endocanabinóides, enquanto outras compartilham sua estrutura química com THC e CBD.

Sim, existem inúmeras moléculas de plantas que possuem formas químicas parecidas aos canabinóides encontrados na maconha.

Essas moléculas também podem ser caracterizadas tecnicamente como fitocanabinóides. O prefixo ”fito-” significa simplesmente planta e não é específico da cannabis. Alguns desses fitocanabinóides não provenientes da cannabis podem atuar no nosso corpo de forma semelhante aos encontrados na cannabis.

Como nosso conhecimento de como o sistema endocanabinóide funciona ainda é relativamente novo (apenas descoberto no início dos anos 90), nossa compreensão continua a evoluir à medida que desvendamos os mistérios de como as plantas têm efeitos terapêuticos no corpo.

Há, no entanto, uma suspeita cada vez mais comum – compartilhada por pesquisadores – de que os efeitos do consumo de plantas, ervas e fungos específicos podem ser a chave para explicar certas flutuações no sistema endocanabinóide.

Há também boas razões para acreditar que nossa dieta, em particular as gorduras que comemos, também têm uma grande influência no SEC.

Fitocanabinóides de outras plantas

Como mencionado, pesquisas têm identificado que várias outras plantas produzem moléculas semelhantes aos fitocanabinóides encontrados na maconha.

Esses fitocanabinóides que não são da cannabis, já foram identificados em:

  • certas espécies de plantas com flores (Rhododendron). Curiosamente, os rododrendos servem de alimento para abelhas do Nepal que produzem mel alucinógeno
  • algumas espécies de hepáticas, uma antiga planta semelhante a samambaia
  • há até evidências emergentes de que certos tipos de fungos são capazes de produzir fitocanabinóides (ou “micocanabinóides”, como alguns os apelidaram na internet, pois o prefixo “mico-” tecnicamente significa ”derivado de fungos”).

Cientistas acreditam que essas moléculas também podem produzir diferentes efeitos no corpo humano, mas qual efeito é produzido exatamente ainda é um mistério.

É importante ressaltar que muitos produtos naturais (como os mencionados acima) também produzem moléculas tóxicas. Portanto, não saia consumindo essas plantas e esperando efeitos como os da maconha, pois nenhum deles ainda mostrou atividade robusta nos receptores CB1.

Outros canabimiméticos

Existem também moléculas sem a forma fitocanabinóide clássica que podem interagir com os receptores canabinóides.

Essas moléculas não são semelhantes em forma química, mas seus efeitos ainda podem ser definidos como canabimiméticos, pois sua atividade é mediada pelo sistema endocanabinóide.

Uma dessas moléculas canabimiméticas, inclusive, é produzida na cannabis, mas não é um canabinóide: o beta-cariofileno.

Esse terpeno pode ser um dos principais contribuintes para os efeitos terapêuticos da maconha. É um conhecido ativador dos receptores CB2, que desempenham um papel importante na inflamação e no sistema imunológico.

Moléculas de plantas que interagem diretamente com o SEC não são tão raras quanto se pensava, e à medida que continuamos a descobrir mais sobre a ciência por trás do sistema endocanabinóide, continuaremos a aprender sobre outras moléculas de plantas com as propriedades semelhantes à cannabis, como terpenóides, curcuminóides, e componentes do vinho, como o resveratrol.

Receptores e enzimas

A interação direta com os receptores do sistema endocanabinóide é apenas uma maneira pela qual os produtos naturais podem interagir com o SEC.

A forma indireta é através das enzimas presentes nesse sistema. Essas enzimas produzem e degradam os endocanabinóides, conforme necessário para manter todo o sistema em equilíbrio.

O Kaempferol é um flavonóide produzido pela cannabis e muitas outras plantas, pode ser encontrado em frutas e vegetais, desde amoras a brócolis. Esta molécula serve como um antioxidante para as plantas, e foi demonstrado que ele inibe uma importante enzima no SEC. Em suma, esse flavonóide pode levar a um aumento considerável nos níveis de anandamida, gerando um impacto positivo na saúde e humor.

Moléculas de outras plantas também inibem diferentes enzimas no SEC, podendo contribuir para melhora do sono, do humor, diminuir inflamações, e melhorar o equilíbrio do sistema endocanabinóide.

Com isso, existem vários produtos farmacêuticos que buscam usar esse mecanismo de ação para combater doenças – desde questões neurológicas, como síndrome de Tourette, até doenças gastrointestinais, como indigestão.

O fato de outras plantas produzirem moléculas semelhantes a canabinóides e moléculas não relacionadas que podem interagir com o SEC é evidência de que plantas e animais co-evoluíram para falar uma linguagem química semelhante.

A relação entre os produtos químicos que as plantas produzem e os receptores dentro dos animais é uma forma inegável de evolução bioquímica que permitiu que os humanos aproveitassem as plantas como remédios (incluindo a cannabis) por milênios.

Quando você tira um pouco o foco da cannabis e examina a maneira como nossos corpos interagem com as moléculas das plantas em geral, você pode ver uma bela complexidade da comunicação molecular através do sistema endocanabinóide.

Essa perspectiva centrada no sistema endocanabinóide e medicina natural, que foi iluminada pela maconha – anteriormente inexplicada pela ciência moderna -, pode conter insights importantes para a saúde.

Fonte: The Cannigma | Imagem de capa: reprodução Sunset

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