O lado espiritual dos psicodélicos é primordial quando pensamos na descriminalização e legalização dessas substâncias.

Uma viagem psicodélica pode estar entre as experiências mais sagradas da vida de uma pessoa. No entanto, o uso dos psicodélicos por uma razão espiritual é muitas vezes ignorado quando pensamos em argumentos a favor da descriminalização e legalização dessas substâncias.

Na maioria das vezes, a legalização da maconha é vista como um modelo para os psicodélicos. Com a cannabis, estamos vendo a planta ser legalizada aos poucos, geralmente para uso médico e depois recreativo.

E, no caso dos psicodélicos, também é possível observar dois caminhos principais para acabar com a proibição: através da medicalização e da descriminalização.

O problema desse ”paradigma binário” é que ele esconde uma terceira maneira de consumo dos psicodélicos: o uso espiritual e religioso, que são considerados tradições em muitas culturas.

Assim, na busca pela legalização dos psicodélicos, esses usos não costumam ser considerados.

O uso de enteógenos em tradições religiosas

Existem grupos de encontros para o uso dos psicodélicos de forma sagrada (nesse caso, as substâncias são consideradas enteógenas, quando há o elemento espiritual presente).

Um desses grupos é o Faith+Delics, que reúne rabinos, padres, praticantes do judaísmo, islamismo, cristianismo e xamanismo.

Um guia que serve plantas medicinais dentro da comunidade judaica falou à Rolling Stone: “essas plantas são professoras e curandeiras, ajudando nosso povo a se curar de traumas pelos quais eles vêm passando por milhares de anos, como uma minoria em Europa e outras terras, e nos ajudando a abraçar nossa verdadeira natureza – de onde nascemos e nossas raízes.” Ao trabalhar com plantas medicinais como a ayahuasca, muitos na comunidade, diz ele, transformaram seus relacionamentos com seus cônjuges, funcionários, Deus, religião e consigo mesmos. Os rituais envolvendo essas plantas, acrescenta, “podem ser praticados de forma não pagã, mas integrados ao sagrado de todas as religiões”.

A verdade é que o uso de substâncias psicoativas já se fez presente em diversas tradições religiosas há milhares de anos: evidências arqueológicas mostram a presença de resíduos de cannabis em locais bíblicos sagrados na antiga cidade de Tel Arad, em Israel, enquanto estudos também apontam para o uso de madeira de acácia (contendo DMT) e um coquetel de outros enteógenos usados ​​em rituais de incenso israelitas, bem como kaneh-bosm (cannabis) no óleo sagrado da unção de Cristo.

Mas, com o proibicionismo, incorporar essas substâncias à prática religiosa (na verdade, à qualquer prática) tornou-se algo praticamente inviável.

O que estamos observando hoje é uma recuperação dessas tradições. Nesse contexto, para quem incorpora psicodélicos em uma religião bem estabelecida, existe proteção legal para tanto?

No Brasil, o consumo de DMT na ayahuasca, em rituais religiosos reconhecidos pela Lei, é permitido.

Segundo a Resolução n. 1/2010, do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas, o uso é liberado de forma ritualística: ”há muito reconhecido como prática legitima, constitui-se manifestação cultural indissociável da identidade das populações tradicionais da Amazônia e de parte da população urbana do País, cabendo ao Estado não só garantir o pleno exercício desse direito à manifestação cultural, mas também protegê-la por quaisquer meios de acautelamento e prevenção”.

Portanto, a pergunta que fica é: será que a proteção religiosa poderia ser mais um caminho para acabar com a proibição?

Legalização para todos os usos

Se o Santo Daime e a União do Vegetal (UDV) têm permissão para uso dessas substâncias, então todas as religiões – ou melhor – todo uso ritualístico deveria ser permitido.

A UDV e o Santo Daime têm elementos cristãos, embora sejam igrejas ayahuasqueiras. “Eles pegam elementos de uma religião majoritária e os aplicam a uma religião minoritária”, diz à Rolling Stone Ismail Ali, advogado de políticas da Associação Multidisciplinar de Estudos Psicodélicos (MAPS), dos Estados Unidos. “Então, olhando para isso, acho que, de certa forma, torna mais plausível que uma comunidade que usa substâncias enteogênicas e que se baseia em uma religião atualmente estabelecida possa ter mais chances de obter uma isenção [da proibição]”.

Especialistas no tema apontam que trazer o uso ritualístico dos psicodélicos ao centro do debate pode ser um caminho promissor para pensarmos em uma política de legalização que consiga atender todos os potenciais usos dessas substâncias.

Mas, como mencionado, estamos vendo uma tendência da área medicinal se apropriar dos potenciais dos psicodélicos. Como no caso da maconha, essa via pode funcionar para aumentar a aceitação social, e culminar na liberação dos outros usos (tão estigmatizados). Porém, nesse cenário, há uma tendência em deixar em segundo plano os – tão importantes – usos ritualísticos.

Por isso, ao pensarmos em legalização dos psicodélicos, é indispensável que seja uma política que olhe para todos esses espectros.

Fonte: Rolling Stone | Imagem de capa: reprodução Harvard Divinity School

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