É comum vermos a distinção entre uso adulto/recreativo e uso medicinal nos países que já legalizaram. Mas, na verdade, o uso adulto também é medicinal.

Isso pode ser comprovado pela relação entre a legalização deste uso e a queda das prescrições de alguns medicamentos ”tradicionais” em estados norte-americanos, conforme aponta uma nova pesquisa.

cannabis

Até o momento, nos lugares que já legalizaram a maconha – ou estão em vias de legalizar – é comum vermos a distinção: uso adulto e uso medicinal. (É importante destacar que uso adulto é a terminologia que tem sido usada para designar o uso recreativo, pois assim como a regulamentação do álcool, apenas adultos, ou seja, maiores de idade, podem ter acesso à cannabis para fins recreativos legalmente).

Essa distinção entre uso adulto x uso medicinal se dá, principalmente, por conta das propriedades psicoativas do THC. Ou seja, o uso adulto/recreativo permite o THC. Enquanto no uso medicinal, ou seja, quando se legaliza a cannabis para fins medicinais, o THC continua ilegal.

Porém, essa distinção se mostra cada dia mais limitada. Principalmente pelo fato do THC ter efeitos terapêuticos e por conta do efeito entourage, que aponta que os canabinóides agindo em conjunto são melhores do que isolados – o que enfraquece a teoria de que a legalização para fins medicinais deve permitir apenas do CBD ou do cânhamo, sem o Delta-9-tetrahidrocanabinol (THC).

O que a realidade mostra é que todo uso é medicinal.

Uma pesquisa recente, inclusive, comprovou esse fato, ao mostrar uma queda no uso de medicamentos prescritos em estados norte-americanos que legalizaram o uso adulto.

Mais maconha, menos medicamentos

No passado, a aprovação de leis de cannabis para fins medicinais foi associada a uma queda nos medicamentos prescritos. Por outro lado, o efeito das leis de cannabis para uso adulto é menos estudado.

Assim, os pesquisadores optaram por analisar as prescrições do Medicaid (programa de saúde social dos Estados Unidos) preenchidas entre 2011 e 2019 em todos os 50 estados norte-americanos.

Nos estados que legalizaram a cannabis para uso adulto, eles encontraram “reduções significativas” nas prescrições para medicamentos destinados a tratar “dor, depressão, ansiedade, sono, psicose e convulsões”, de acordo com o artigo de pesquisa publicado na revista Health Economics.

As pessoas estão se automedicando com cannabis e, embora seja difícil dizer com certeza se estão obtendo os mesmos resultados do uso de medicamentos ”tradicionais”, o fato de não parecerem estar retornando aos produtos farmacêuticos é sugestivo, como o coautor do estudo, Shyam Raman, comentou.

“O que a legalização [da cannabis de uso adulto] faz é abrir uma oportunidade de automedicação sem consultar um médico e potencialmente ser negada porque sua doença não está na lista de condições de qualificação”, disse Raman, que enfatizou que, embora apenas os dados do Medicaid foi estudado, esses resultados são aplicáveis ​​à população em geral. “Há algumas evidências reais de que as pessoas estão se automedicando e não estão voltando para os produtos farmacêuticos”.

Cannabis para ansiedade, depressão e insônia

Entre as classes de drogas estudadas, Raman e a coautora do estudo Ashley Bradford (ambos estudantes de doutorado) viram as quedas mais acentuadas na demanda por medicamentos para ansiedade (queda de 12,2% na prescrição de medicamentos), depressão (queda de 11,1%), insônia (queda de 10,8%) e psicose (queda de 10,7%).

Além da potencial economia de custos para os programas Medicaid (financiados pelo governo federal e estaduais dos EUA), a legalização da cannabis para uso adulto pode apresentar um benefício adicional de redução de danos, descobriram os pesquisadores, com as pessoas abandonando ou reduzindo a dependência de medicamentos farmacêuticos com efeitos colaterais desagradáveis, à medida que a cannabis se torna disponível.

“Acreditamos fortemente que as pessoas estão fazendo isso porque os efeitos colaterais dos produtos farmacêuticos são realmente frustrantes”, disse Raman.

As descobertas sugerem adotar uma compreensão mais sofisticada e expansiva da legalização da cannabis para uso adulto – e nunca negligenciar o fato de que, não importa como você a chame (medicinal, recreativa, industrial), a cannabis pode ser um produto de bem-estar. E isso não deve ser ignorado nas políticas de legalização.

“O mercado de cannabis para uso adulto, na maioria dos estados, é mais fácil de utilizar, porque os pacientes não precisam pagar por um cartão de paciente e não precisam obter a recomendação de um médico” para ter acesso à planta, disse ao Cannabis Now Debbie Churgai, diretora do ”Americans for Safe Access”, principal grupo de defesa da política medicinal de cannabis dos Estados Unidos.

Mas é importante ter em mente que, apesar dos avanços diários, pesquisas sobre a cannabis ainda são escassas. Portanto, se medicar com maconha ainda deixa algumas perguntas sem respostas para pacientes, como dosagem e regime de medicação. Com isso, muitos pacientes acabam tendo que descobrir por si só o que funciona ou não – apesar de não ser o recomendado.

“Ainda não sabemos como regular a cannabis como medicamento”, disse Raman. “Como estamos em posição de dizer: ‘Isso é médico’, sem poder dizer: ‘Esta é a quantidade que você toma para uso terapêutico’?”.

Ou seja, com as evidências científicas que existem até agora, ainda pode ser complicado afirmar que todo uso é medicinal sem saber indicar para os pacientes qual dosagem e regime de uso é o adequado para cada caso.

Sempre medicinal ou benéfica para a saúde?

Então, a cannabis é sempre medicinal ou é benéfica para a saúde? É difícil dizer com certeza – mas, em última análise, pode não importar.

“Não gosto de comparar [cannabis medicinal e de uso adulto]”, comenta Churgai. “Acho que este é um ótimo exemplo de como as pessoas estão sentindo os efeitos do medicamento, quer reconheçam ou não”.

Mas o que isso sugere é que a indústria da cannabis pode precisar reavaliar suas mensagens. Não se deve esquecer que pacientes também fazem uso dos produtos que estão segmentados em ”uso adulto”.

“Se você for a essas conferências de negócios, mal verá ou ouvirá a palavra ‘paciente’ em qualquer apresentação”, disse Churgai. “Acho que isso está se perdendo cada vez mais à medida que nossa indústria cresce. Eles acham que o mercado de cannabis para uso adulto seria maior do que o mercado de maconha medicinal”.

Mas, como a pesquisa sugere, as diferenças não são tão nítidas. ”Cannabis medicinal” e ”recreativa” é apenas uma distinção que se mostra cada vez mais falha.

Fonte: Cannabis Now

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