As Clínicas Beneva consistem na primeira rede de clínicas do Brasil com terapias assistidas por psicodélicos para atenção à saúde mental.

psychedelics

Marco Algorta, um dos pioneiros no ramo da cannabis no Uruguai, e o gastroenterologista Bruno Rasmussen Chaves, de Ourinhos (SP), abriram oficialmente as Clínicas Beneva, localizada no bairro paulistano de Pinheiros.

A Clínica oferece tratamentos para depressão resistente, ideação suicida, dores crônicas e dependência química dentro de uma perspectiva de medicina integral, com foco nas necessidades individuais de cada paciente. As terapias assistidas com psicodélicos têm foco na cetamina, por enquanto, cujo uso medicinal é legal no Brasil.

Os fundadores da Clínica, Marco Algorta e Dr. Bruno Rasmussen, também são CEO e diretor clínico, respectivamente, da Bienstar Wellness Corp., uma empresa focada em tratamentos de saúde mental com psicodélicos.

A Bienstar comprou do médico a empresa BRC Saúde Mental e Terapias Assistidas e iniciou contato com clínicas psiquiátricas do Brasil para oferecer terapias com cetamina na capital.

A Bienstar reuniu investidores do Uruguai, Panamá e Canadá para trazer as Clínicas Beneva para o Brasil.

Status legal das terapias psicodélicas no Brasil

Nos Estados Unidos, já existem diversos centros para tratamento com injeções de cetamina. Um diretório de clínicas aponta mais de cem estabelecimentos norte americanos que oferecem a terapia. Cada infusão varia de US$ 300 a US$ 600, e o tratamento pode envolver seis ou mais delas.

Cetamina e ibogaína são, por ora, as duas substâncias psicodélicas com que se pode trabalhar legalmente no Brasil.

Não são consideradas substâncias psicodélicas clássicas, como a psilocibina de cogumelos e a dimetiltriptamina (DMT) da ayahuasca, que ainda estão em estudo contra transtornos psíquicos e não contam ainda com autorização para uso clínico.

A cetamina é um anestésico dissociativo antigo, registrado na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Vem sendo usado off label para tratar depressão, pois tem a vantagem de agir mais rápido que antidepressivos.

O enteógeno pode trazer melhora em horas ou dias, e não semanas. Isso pode ser decisivo para pacientes com ideação suicida ou que não obtêm resultado com os remédios disponíveis.

A farmacêutica Janssen lançou a variante escetamina na forma de spray nasal. Cristais de cetamina também são usados recreativamente, aspirados pela narina.

A ibogaína deriva originalmente da planta africana Tabernanthe iboga, usada ritualmente por adeptos da religião Bwiti no Gabão e países vizinhos. Nos anos 1960 descobriu se que pode tirar a fissura de dependentes químicos, ou seja, atenuar sintomas da síndrome de abstinência e, assim, ajudar a prevenir recaídas.

Rasmussen Chaves começou a ministrar a ibogaína em 1997. Um estudo da Unifesp com 75 de seus pacientes indicou que 70% deles permaneciam sem abusar de drogas ilícitas ou lícitas (como álcool) um ano depois do tratamento.

Alguns psiquiatras brasileiros já empregam a cetamina em seus consultórios, mas a Beneva é a primeira clínica nacional a se especializar nessa terapia psicodélica e contará para isso com apoio de anestesistas experientes na administração da substância.

No caso de ibogaína, os dirigentes da Beneva têm expectativa de receber também pacientes do exterior, como já acontecia ocasionalmente na prática clínica de Rasmussen Chaves. Dependentes químicos dos Estados Unidos e Canadá, por exemplo, não têm acesso a essa substância de forma legal.

No Brasil, isso é possível por meio de autorizações excepcionais da Anvisa. O medicamento não tem registro no país, mas a agência permite a importação, caso a caso, desde 2013 sob prescrição médica e para uso individual.

”Não é uma cura milagrosa”, alerta o Dr. Rasmussen Chaves, ”mas, quando usada com cuidado e apoio psicológico, é um valioso tratamento alternativo para pacientes gravemente adictos que não obtêm resultados de sucesso com outras abordagens”.

”Além de ser o principal mercado da América Latina, o Brasil nos permite aplicar tratamentos com ibogaína de maneira regulada e segura, com uma equipe que tem mais de 20 anos de experiência com essa substância”, diz Marco Algorta, CEO da Bienstar e fundador da Beneva. ”Esse é um diferencial importante, e confiamos que isso contribuirá para nosso crescimento”.

As Clínicas Beneva também pretendem entrar nos mercados mexicano, panamenho, peruano e uruguaio. Sua sede fica no Brasil, pela massa crítica acumulada na pesquisa psicodélica, e no Uruguai, porque a situação financeira ali é mais confiável.

”O Brasil tem 8 ou 9 dos 100 ‘top players’ de [estudos] psicodélicos”, afirma Algorta.

A empresa tem planos de investir não só em clínicas, mas também em educação médica e esclarecimento do público, pois ainda há muito preconceito com psicodélicos fomentado pela propaganda proibicionista da Guerra às Drogas.

Fonte: Folha de São Paulo | Imagem de capa: Lemon Magazine

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