A cetamina tem ganhado atenção como uma opção de tratamento para questões de saúde mental, como depressão.

(Imagem: reprodução Healthline)

A cetamina (ou ketamina) é usada na medicina como um anestésico geral para procedimentos médicos nos quais o paciente deve estar inconsciente, mas o relaxamento muscular não é necessário.

Essa substância também é usada de forma recreativa, considerada um dissociativo, mas também caracterizada como um ”psicodélico” por alguns especialistas.

Atualmente, pesquisadores vêm explorando o uso de doses subanestésicas de cetamina para o tratamento da depressão.

Pesquisadores da Universidade de Exeter, no Reino Unido, realizaram uma análise de estudos existentes sobre e tema e verificaram que a terapia com cetamina oferece alívio rápido e de curto prazo da depressão e, até certo ponto, alivia pensamentos suicidas e outros sintomas de saúde mental.

O estudo foi publicado no British Journal of Psychiatry Open e foi realizado em colaboração com a University of British Columbia e com o apoio da Society for the Study of Addiction.

A meta-análise de 83 estudos existentes avaliou o valor da terapia com cetamina para o tratamento de uma ampla gama de condições de saúde mental.

Esses estudos incluem 29 ensaios clínicos randomizados, 21 estudos observacionais e 33 revisões sistemáticas.

Questões de saúde mental

O efeito mais relevante que os estudos documentam é o valor da terapia intravenosa com cetamina para aliviar a depressão.

Uma redução na gravidade da depressão unipolar ocorreu dentro de 1 a 24 horas e durou 1 a 2 semanas. Em comparação, as doses orais levaram até 2 semanas para fazer efeito.

O alívio da depressão bipolar também foi rápido, ocorrendo 4 horas após a administração e permanecendo consistentemente por 24 horas. O efeito total durou até 3 dias, com algum alívio ainda aparente após 7 dias.

Os estudos também apoiam o uso de cetamina para o tratamento de distúrbios afetivos e pensamentos suicidas.

De ideação suicida, co-autor e Ph.D da Universidade de Exeter, Ozden Merve Mollaahmetoglu, disse ao Medical News Today:

“É realmente interessante que haja alguma evidência de um efeito nos pensamentos suicidas independente dos sintomas depressivos, e seria ótimo entender o mecanismo desse efeito. Essa descoberta é importante porque há risco de suicídio em vários problemas de saúde mental, por isso seria interessante ver se poderíamos tratar pensamentos suicidas em outras condições, como transtornos por uso de substâncias”.

Mollaahmetoglu também observou: “Como o efeito da cetamina em pensamentos suicidas foi de curta duração, também seria importante determinar como isso pode ser estendido – por exemplo, em combinação com psicoterapia. Também não sabemos se várias doses de cetamina são mais eficazes do que uma dose única para reduzir pensamentos suicidas, pois isso não foi comparado diretamente.”

Outra pesquisa analisada encontrou benefício terapêutico no uso de cetamina para outros transtornos psiquiátricos, como “transtorno de estresse pós-traumático, transtorno obsessivo-compulsivo, ansiedade e transtornos por uso de substâncias”.

No entanto, escrevem os autores, “a base de evidências compreendia um pequeno número de ensaios, em sua maioria não randomizados, com períodos de acompanhamento geralmente curtos, exigindo, portanto, corroboração e extensão”.

Uso em ambiente clínico

O estudo também enfatiza a importância de restringir a administração de cetamina a circunstâncias clínicas cuidadosamente controladas.

O autor Mollaahmetoglu comentou:

“A cetamina é uma droga muito segura em um ambiente clínico. Quando as pessoas recebem cetamina, vemos aumentos leves na pressão arterial e na frequência cardíaca, que podem ser monitorados e gerenciados em ambientes clínicos”.

Além disso, pessoas que podem estar em “maior risco de reações psicológicas negativas à cetamina, como pessoas com histórico pessoal ou familiar de esquizofrenia” devem evitar a substância, mesmo de forma medicinal. Portanto, é necessário que antes de fazer qualquer uso da cetamina, a pessoa deve consultar um médico para saber se pode iniciar o tratamento ou deve evitá-lo.

Além disso, em tal cenário, “as pessoas recebem preparação e apoio psicológico durante e após as infusões de cetamina, o que provavelmente reduz o risco de reações psicológicas adversas”.

Finalmente, é possível proteger os indivíduos em um ambiente clínico de lesões acidentais e vulnerabilidade física devido ao efeito dissociativo da cetamina. Esse efeito promove uma “consciência reduzida de seu ambiente, falta de coordenação, incapacidade de se comunicar e entrada sensorial consideravelmente diminuída”.

Além disso, outros especialistas apontam que, mesmo na área medicinal, é preciso ter cautela com o tratamento.

O Dr. Alan F. Schatzberg, professor de psiquiatria e ciências comportamentais da Universidade de Stanford, comenta: “a cetamina funciona através de um mecanismo opióide, e a cetamina em certas formas e em certas situações, é altamente viciante”.

Assim, apesar da promessa para a área da saúde mental, o uso em um ambiente clínico é fundamental.

Tratamento disponível

Desde 2019, a cetamina se tornou um tratamento mais popular após a aprovação – pelo Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos) – do Spravato, um spray nasal de escetamina.

A ANVISA, inclusive, aprovou o uso no Brasil, em 2020. Porém, o medicamento deve ser administrado só em hospitais ou em clínicas autorizadas, sob a supervisão de um profissional de saúde

E é recomendado quando dois ou mais medicamentos contra a depressão falharam – ou na presença de comportamento ou ideação suicida aguda.

O tratamento médio exige entre 4 a 6 infusões de estabilização durante a primeira semana, com intervalos crescentes para infusões de manutenção a cada 10 a 30 dias. As infusões ocorrem mensalmente por até um ano e depois continuam com reforços ocasionais para obter benefícios duradouros.

Portanto, para a eficácia da cetamina em questões de saúde mental, é fundamental que haja acompanhamento médico.

Fontes: Medical News Today e PebMed

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